fev
28
Mais uma vez

"Eu quero um colo, um berço, um braço quente em torno ao meu pescoço, uma voz que cante baixo e pareça querer me fazer chorar. Eu quero um calor no inverno, um extravio morno de minha consciência e depois sem som, um sonho calmo, um espaço enorme, como a lua rodando entre as estrelas…" (Fernando Pessoa)

Mais uma vez chegou a noite e aqui estou, perdida entre pensamentos e a indignação comigo mesma, por não ter realizado aquilo que planejei. Mais uma vez a vida me assustou e me senti indefesa, como uma criança que se perde em meio à multidão - então senta em um canto qualquer e chora, assim, desesperadamente. Mais uma vez tive que exorcizar meus fantasmas, aqueles com os quais quase me acostumei, justamente por estarem sempre dentro de mim. Mas eles sempre voltam e, mais uma vez, ele voltaram.

O mundo quer me abraçar, me dar colo, mas eu fujo. É uma fuga injusta, tanto para quem precisa de proteção quanto para quem quer proteger. Eu sou injusta, sempre fui, não irei mudar. Eu sei, eu sinto. Parece que está tudo predestinado quando, na verdade, não está. Apenas é mais fácil pensar assim, aceitar que o destino está escrito e eu não tenho uma borracha por perto. Também não quero ir à busca de uma, isso me cansaria. Não quero me cansar. Como um clichè, tenho me cansado demais.

Enquanto lá fora tudo ocorre, aqui dentro nada acontece. Só os fantasmas, indo e vindo, como as ondas de um mar revolto em pleno verão. Mas, fora isso, nada acontece. Amanhã estarei de ressaca sem ter me embriagado, o que é ainda pior. Pudera eu me afogar naquele mesmo mar, permanecer submersa e inconsciente. Não dá. Sou consciente até demais. E sempre haverá alguém disposto a me salvar - só que eu não quero ser salva. Me deixem assim, nem lá nem cá, nem longe nem perto. Porque, mais uma vez, chegou a noite e eu fui embora.

(do fundo do baú)

 
 
© Beta de Felippe
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fev
26
Sobre cavalos

Que o ser humano deveria tornar-se um ser mais humano todos sabemos, mas não é sobre a humanidade que quero falar agora - quero falar sobre cavalos. Volte alguns séculos no tempo, como tenho feito ultimamente ao prestar mais atenção à minha coleção de DVDs épicos, e repare que muitas vezes no dia a dia nós nos assemelhamos aos cavalos. Enquanto reis se esforçavam para manter o poder sobre seus reinos e cavaleiros travavam batalhas mortais para defender os interesses dos próprios reis, qual era o papel dos cavalos em relação às guerras? Eram criados e adestrados com apenas um intuito: servir. Se um cavalo era ferido em batalha era também, e consequentemente, sacrificado; não para evitar seu sofrimento, mas sim porque já não tinha mais serventia. Ninguém sentia dó ao matar um cavalo, até porque atingindo o animal tornava-se mais fácil fazer o mesmo com o inimigo.

Percebem? Nós somos cavalos. Vivemos uma guerra diária, onde a disputa de poderes nos divide em dois grupos: os úteis e os inúteis. Você pode ter a certeza absoluta de que é importante e, no momento seguinte, descobre que já não passa de algo sem utilidade que será sacrificado para que não atrapalhe. E, o mais triste, é que estamos em pleno século XXI, mas ainda somos cavalos.

 
 
© Beta de Felippe
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