quinta-feira, 28/02/2008 

"Eu quero um colo, um berço, um braço quente em torno ao meu pescoço, uma voz que cante baixo e pareça querer me fazer chorar. Eu quero um calor no inverno, um extravio morno de minha consciência e depois sem som, um sonho calmo, um espaço enorme, como a lua rodando entre as estrelas…" (Fernando Pessoa)

Mais uma vez chegou a noite e aqui estou, perdida entre pensamentos e a indignação comigo mesma, por não ter realizado aquilo que planejei. Mais uma vez a vida me assustou e me senti indefesa, como uma criança que se perde em meio à multidão - então senta em um canto qualquer e chora, assim, desesperadamente. Mais uma vez tive que exorcizar meus fantasmas, aqueles com os quais quase me acostumei, justamente por estarem sempre dentro de mim. Mas eles sempre voltam e, mais uma vez, ele voltaram.

O mundo quer me abraçar, me dar colo, mas eu fujo. É uma fuga injusta, tanto para quem precisa de proteção quanto para quem quer proteger. Eu sou injusta, sempre fui, não irei mudar. Eu sei, eu sinto. Parece que está tudo predestinado quando, na verdade, não está. Apenas é mais fácil pensar assim, aceitar que o destino está escrito e eu não tenho uma borracha por perto. Também não quero ir à busca de uma, isso me cansaria. Não quero me cansar. Como um clichè, tenho me cansado demais.

Enquanto lá fora tudo ocorre, aqui dentro nada acontece. Só os fantasmas, indo e vindo, como as ondas de um mar revolto em pleno verão. Mas, fora isso, nada acontece. Amanhã estarei de ressaca sem ter me embriagado, o que é ainda pior. Pudera eu me afogar naquele mesmo mar, permanecer submersa e inconsciente. Não dá. Sou consciente até demais. E sempre haverá alguém disposto a me salvar - só que eu não quero ser salva. Me deixem assim, nem lá nem cá, nem longe nem perto. Porque, mais uma vez, chegou a noite e eu fui embora.

(do fundo do baú)



© Beta de Felippe
arquivado em: Viagens da Alma


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3 comentários em “Mais uma vez”

28/02/2008 às 22:29 hs

otimo blog….

sucesso


29/02/2008 às 7:01 hs

pode ser que as coisas comuns não se encaixe em vc tão criativa, porque seu empenho verdadeiro seja ser uma cidadã de todas as eras e praças. Nietzsche era um homem debilitado e odiado, e ainda por cima dormia dentro da própria noite em si, mas ele carregava a luz da humanidade, quem tem olhos honestos sabe o que digo, a nossa civilização ficou marcadíssima pela leitura dele de cada natureza nossa.

Já sobre você, eu converso com tuas experiências expostas aqui em textos, como se descobrisse grande ligação entre você e o futuro de muitos. Um talento que se desabrocha a cada letra, e não pelo bem "acadêmico", mas por um sol mais alto e mais paterno com os dias que ainda não vemos do lado de cá do tempo.


MANU
07/03/2008 às 9:06 hs

MAIS UMA VEZ E QUEM SABE AINDA SOU UMA GAROTINHA…PUTZ, NUNCA ME IDENTIFIQUEI TANTO!



















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