quinta-feira, 24/07/2008 

Quando era mais nova e todos os meus primos sonhavam acordados com a viagem em família para a Disneyland que se aproximava, eu costumava sentar na areia com as pernas cruzadas e ficar observando o mar da cidade onde morava enquanto perguntava a mim mesma: "Por que não aqui?". Eu não queria ir tão longe para poder fantasiar e nem precisava disso. Ali eu tinha meus peixes falantes, tele-caramujos e sereias com cabelos emaranhados. Por que não ali?

Mas quando crianças nós ainda não entendemos o sentido da fantasia, por mais que ela esteja presente em todos os dias da nossa infância. Hoje eu sei de sua importância e sei, também, que ela não se limita aos anos que ficaram para trás.

Então eu faço planos e vou caminhando lentamente - em frente - com receio do que existe após a curva. Se ainda fosse criança eu estaria mais fascinada do que amedrontada, afinal toda expectativa se resumiria ao encontro com príncipes encantados, fadas madrinhas e um lugar perfeito onde eu reinaria feliz para sempre. O fato é que não importa quão adulta eu seja, a fantasia ainda existe e é exatamente ela que me traz o temor, porque as chances de não encontrar uma fada madrinha que me apresente ao tal príncipe encantado com quem reinarei na felicidade eterna um lugar perfeito são muito grandes.

De qualquer forma, é preciso enfrentar a curva da estrada, já que retornar não é mais possível. Em razão disso optei por me concentrar no caminho, pois é onde estou agora. E é um caminho deveras real.


Além da curva da estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há
para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por hora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

(Fernando Pessoa)



© Beta de Felippe
arquivado em: Poema & Poesia, Viagens da Alma


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3 comentários em “Além da curva da estrada”

24/07/2008 às 18:40 hs

Concordo contigo em partes, pelo menos pra mim, a fantasia ainda é muito presente. Mas a diferença que ao invés de eu sonhar com príncipes eu sonho mais comigo.


02/08/2008 às 17:02 hs

Na verdade existe uma linha tenue entre a fantasia e o deslumbre. Beijus


06/08/2008 às 11:41 hs

Beta, sonhar é bom demais.
Beijocas



















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